A inteligência artificial não ameaça apenas empregos de baixa renda. Para os economistas Esther Duflo e Abhijit Banerjee, vencedores do Nobel de Economia, o risco maior está na classe média — e sem políticas públicas específicas, o mundo pode mergulhar em uma crise social de grandes proporções. As informações são do Coisas da Política.
“Estamos diante de uma transformação que pode destruir ocupações intelectuais em países de renda média. Será uma crise global”, alertou Duflo. A resposta, segundo ela, passa por programas de proteção social que não se limitem aos mais pobres, mas que também amparem trabalhadores da classe média, hoje vulneráveis à automação.
Banerjee reforça que o Brasil tem papel estratégico nesse debate. Pioneiro em transferências de renda como o Bolsa Família, o país pode liderar a criação de mecanismos voltados à classe média. “O desafio é pensar em programas que ajudem não só os mais vulneráveis, mas também aqueles que perderão espaço no mercado de trabalho por causa da IA”, disse.
Taxação justa, não maior
Entre as propostas está a taxação de grandes fortunas, vista como essencial para financiar políticas de transição e adaptação. Duflo faz questão de esclarecer: não se trata de cobrar mais dos ricos, mas de acabar com a distorção que faz com que eles paguem proporcionalmente menos impostos do que qualquer outra pessoa. “A ideia é colocá-los em pé de igualdade. Hoje, bilionários literalmente pagam menos impostos do que trabalhadores comuns”, afirmou.
Brasil como laboratório global
O casal, professores do MIT e líderes da Lemann Collaborative, aposta em soluções baseadas em evidências. Uma das ideias em discussão é o “Pix do Clima”, que prevê transferências automáticas em períodos de eventos extremos, unindo inovação tecnológica, combate às desigualdades e preservação ambiental.
Na visão dos Nobel, o Brasil pode ser o epicentro de novas soluções. Além da experiência com transferências sociais, o país reúne condições para testar políticas inovadoras que unam combate à desigualdade, preservação da Amazônia e adaptação às mudanças climáticas. Educação, emprego para jovens e conservação ambiental são os três eixos prioritários da Lemann Collaborative no país.