Flávio: 'A questão da vacina gerou desgaste a Bolsonaro'

Atualizado: 4 de abr.

Senador afirma ao GLOBO que posicionamentos de Bolsonaro sobre a imunização repercutiram mal eleitoralmente e que, por isso, titular do Planalto vai ajustar o discurso.

Foto: Cristiano Mariz/Agência O Globo

Via Jussara Soares (O Globo)


O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), filho mais velho do presidente, emergiu de um período mergulhado no escândalo das rachadinhas para assumir o posto de coordenador da reeleição do pai. Na nova função de destaque, o parlamentar tem a missão de construir palanques estaduais e reverter a queda na popularidade de Jair Bolsonaro. Em entrevista ao GLOBO, Flávio reconhece que pesquisas internas do comitê de campanha apontam que o desgaste do presidente é consequência do discurso antivacina. Bolsonaro não se imunizou – e, por diversas vezes, já colocou em dúvida a eficácia e segurança dos imunizantes.


Enquanto não consegue convencer o pai a mudar de opinião, o senador ensaia a defesa do presidente, alegando que o governo nunca deixou de fornecer vacinas, e o ataque aos adversários, culpando o ex-juiz Sergio Moro pela soltura do ex-presidente Lula, porque "fez coisas que estavam fora da lei".


Ao GLOBO, Flávio ainda reconhece erros cometidos pelo governo e diz que o comportamento de Bolsonaro mudou nas últimas semanas para evitar fornecer munição aos seus detratores. O parlamentar também diz que o Republicanos, importante aliado do governo, está mais distante do núcleo duro do comitê de campanha, e afirma que acredita ser possível avançar numa negociação com o União Brasil.


Qual é o seu papel no comitê de campanha e quais os papeis de outros integrantes?


Estou dedicando um tempo para tomar todas as decisões no tempo que o presidente não tem. Sei quais são as preferências e como funciona um pouco a cabeça dele. Isso estabiliza e dá menos trabalho a ele. Sei mais ou menos o que ele quer nos estados, sei com quem é possível caminhar e com quem não é. Começamos a fazer um mapeamento de todo o Brasil, (traçando) a estratégia nos estados e (vendo) o que é importante para cada partido, para que todo mundo fique bem atendido nessa coalizão. Também estamos montando a estratégia da comunicação.


Nas pesquisas que fazemos, observamos que muita gente não tem conhecimento das coisas boas que o presidente Bolsonaro fez, muito em função da nossa deficiência na hora de comunicar. No começo do governo, havia o entendimento de que o uso de internet bastaria, por isso não se priorizou, por exemplo, a publicidade do governo nos veículos impressos, televisão, de rádio. Hoje a gente sente falta.


Quem será o marqueteiro da campanha?


O marqueteiro da campanha será Jair Messias Bolsonaro mesmo. Os próprios publicitários com quem temos conversado têm essa consciência. Não funciona alguém do lado do Bolsonaro falando o que ele tem que fazer todo dia, do que tem que falar e como se portar. Nosso trabalho vai ser criar uma metodologia para mostrar o que, segundo as nossas pesquisas, funciona, o que o povo gosta mais, com o que se incomoda e levar essas informações mastigadinhas para ele (Bolsonaro) decidir o que fazer. De duas semanas ou três semanas para cá, ele já deu uma mudada na postura. Ele já entendeu que não adianta deixar coisas mal explicadas, pois serão exploradas contra ele. As pesquisas mostram que a questão da vacina gerou um desgaste. Mas Bolsonaro garantiu a vacina para todo o Brasil. Quem quis tomar a vacina teve acesso a ela. Como é que a gente comunica isso para que o povo entenda que o Bolsonaro não é contra a vacina?


Mas ele não se vacinou...


Ele é a favor da liberdade de a pessoa escolher o que quer fazer. De fato, a vacina (contra a Covid-19) não foi testada como as outras sempre foram. É óbvio que os laboratórios têm credibilidade, não foram feitas no fundo de quintal. A Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) aprovou, então a gente confia na vacina, mas tem muita gente que não confia.


Não é um erro político do presidente não se vacinar e questionar a eficácia dos imunizantes?


Não é erro político. É uma virtude do Bolsonaro, como chefe de uma nação, alertar a população sobre os riscos (de se vacinar) para que cada um tome a sua a sua posição. Ele sempre me ensinou que não se deve fazer nada para agradar a alguém ou pensando em voto. Você vai falar a sua verdade, e quem quiser votar em você vai votar pelo seu pacote e ninguém vai se surpreender. Todo mundo votou sabendo como Bolsonaro é. E ele foi deputado sete vezes e presidente da República.


Como o vereador Carlos Bolsonaro participará da campanha deste ano?


Carlos tem o valor de ser intuitivo, de saber aquilo que o eleitor do Bolsonaro gosta, e ele consegue transformar isso em conteúdo. Creio que isso manteve o nosso eleitorado muito consolidado. Esta será uma campanha diferente para mostrar o que foi feito. O Carlos vai continuar porque ele está próximo da nossa raiz. Carlos não deixa Bolsonaro se distanciar de sua base.


Muitas das crises no governo foram infladas pela militância nas redes sociais. Como conciliar esse grupo com os novos aliados do Centrão, que hoje comandam a campanha?


O nosso eleitor amadureceu muito nesses três anos. Por mais que não concorde com tudo que o Bolsonaro faz, ele já compreende que não tem como governar sem flexibilidade. Para ter voto, tem que conversar, ter convergências de interesses, não necessariamente com cargos. O eleitor sabe da importância de ter um Congresso Nacional alinhado com o presidente. Acredito que Bolsonaro, se reeleito, terá uma base ideológica maior, mais sensível em aprovar matérias da pauta conservadora. Não vejo isso (a aproximação com o Centrão) como algo que vá tirar votos do Bolsonaro. Até porque um eleitor que, mesmo que esteja decepcionado com o Bolsonaro por causa de uma coisa ou outra, jamais votará no Lula.


O senhor diz que o eleitor amadureceu. E o que mudou no presidente Bolsonaro?


O presidente amadureceu muito também. Se o governo começasse hoje, com a maturidade que ele tem e o conhecimento de como lidar com a máquina pública, certamente cometeríamos muito menos erros e teríamos um mandato muito menos conflituoso. No ímpeto de querer fazer a coisa certa, ele se vê tolhido no exercício da Presidência, seja pelo Congresso, seja por decisões judiciais.


As sucessivas crises com o STF estão entre esses erros?


No começo do mandato, havia muita desconfiança por parte de algumas poucas pessoas das cúpulas dos Poderes com relação ao Bolsonaro, mas isso foi se resolvendo com uma conversa. Quando ele consegue se mostrar para um ministro do Supremo, para senadores, para deputados, o respeito vem naturalmente e cessa a preocupação de: "Vou me preparar aqui para guerra, porque se, esse maluco do Bolsonaro fizer alguma coisa, eu sei como é que eu vou reagir”. Isso aconteceu muito no começo do mandato. Hoje as pessoas já veem que Bolsonaro não tem nada de ditador, nada de autoritário. Quem conhece o Bolsonaro perde esse preconceito todo.


Mas houve momentos de tensão entre Poderes em que o presidente Bolsonaro foi aconselhado a promover uma ruptura institucional?


Há conselhos de tudo quanto é forma. Isso é inegável, mas ele é uma pessoa madura, experiente, que sabe filtrar e tomar decisão. Tanto que não houve decisão nenhuma de ruptura. É óbvio que as pessoas olhavam para algumas atitudes de alguns ministros do Supremo, que claramente víamos que pareciam estar brincando de dar canetada e atrapalhar o desenvolvimento do Brasil, de desrespeitar o resultado das urnas. Só que presidente tem plena consciência que, se se fosse para chutar o balde, o Brasil afundaria. Muitas pessoas pediram uma reação quando viam algumas decisões, mas nunca nada com Forças Armadas. Isso é uma lenda de que militares vão colocar um tanque na frente do governo para ameaçar. Isso nunca existiu. Nunca teve essa conversa, apesar de uma parte da população ter pedido isso no 7 de Setembro, quando ele (Bolsonaro) explodiu daquele jeito com o ministro (Alexandre de Moraes). Era o sentimento ali das pessoas gritando “eu autorizo” a ter uma ruptura institucional. Isso é muito ruim para o país. O presidente teve o equilíbrio, depois daquele ímpeto, de rapidamente retomar o diálogo. Como falar que o Bolsonaro não era um estadista?


As pesquisas mostram o ex-presidente Lula à frente do presidente Bolsonaro. Qual a estratégia para reverter esse cenário?


Esse é o mesmo roteiro de 2018, quando diziam que Bolsonaro perdia para todo mundo no segundo turno. Há pesquisas manipuladas, tem pesquisas que a metodologia não funciona direito e tem o eleitor que decide voto nos últimos dois, três dias. É difícil acertar mesmo e, então, nosso termômetro é a rua. Veja onde Bolsonaro anda e como ele é recebido? O Lula não pode sair na rua que é hostilizado, como ele tem 40%? O que enxergamos nessas pesquisas é que não é um voto no Lula, mas uma certa rejeição ao Bolsonaro neste momento, muito em função da percepção de que ele seria contra a vacina. Ele não é contra a vacina, ele é a favor da liberdade de a pessoa escolher se quer se vacinar. Só que a forma como ele colocou isso tudo, e uma uma parte grande da imprensa explorou isso para atacar o presidente, ajudam a construir essa percepção negativa. Então, não são votos do Lula. Neste momento, são pessoas que equivocadamente estão acreditando que a sua vida piorou por causa do Bolsonaro. Mas é por causa do Bolsonaro que estão chegando no mínimo R$ 400 para 17 milhões de famílias no Brasil que recebiam em média R$ 190. E tenho convicção de que, nos comunicando melhor, vamos reverter isso.


Mas vai dar tempo?


Vai. Isso é rápido. O comportamento de Bolsonaro de três semanas para cá já é outro porque ele se convenceu que não pode mais ficar dando munição para atirarem nele injustamente. A partir do momento em que o Bolsonaro conseguir transmitir tudo o que ele fez, a população perceberá que ele fez a coisa correta, essa rejeição diminuirá. Não estamos preocupados com Lula.


A candidatura do ex-ministro Sergio Moro mira parte do eleitorado do presidente Bolsonaro. Ele é uma ameaça?


A candidatura dele não ameaça ninguém. Ele tem consciência da inelegibilidade dele. Se ele tinha a percepção boa da população por ter sido um bom juiz, ele, como político, foi um fiasco. Além de um grande traidor e agora está mostrando que não tem tamanho eleitoral. Até porque, para mim, quem soltou o Lula foi o Moro. Segundo entendimento do STF, ele fez coisas que estavam fora da lei e que não precisavam ser feitas. Era só ter cumprido a lei que Lula estava preso até hoje.


As negociações com os partidos aliados em torno da candidatura do presidente Bolsonaro passam pela concessão de cargos no governo?


Ninguém está falando de cargo, mas de composições nos estados. Com as pesquisas, avaliamos os nomes mais fortes para concorrer a governo e ao Senado (em cada estado). Também avaliamos os nomes de candidatos a deputado federal e a que partido eles devem se filiar.


Não é natural que esses partidos aliados queiram mais espaço no governo?


Claro que é natural, mas nesse momento ninguém está discutindo isso. PL e PP estão 100% alinhados, nem Valdemar (Costa Neto, presidente do PL), nem Ciro (Nogueira, ministro-chefe da Casa Civil e presidente licenciado do PP), nem ninguém falou em apoiar em troca de ministérios, até porque o presidente Bolsonaro já traçou uma linha no chão, e todo mundo já sabe qual é o limite dele. É um governo que está há três anos sem corrupção e com ministros que têm formações compatíveis com os ministérios que ocupam.


Por que o Republicanos, um partido considerado aliado, está distante do comitê de campanha?


De fato, o presidente do Republicanos, Marcos Pereira, que participou das primeiras reuniões (do comitê) não tem mais comparecido. O Republicanos é um partido que, de sua base, 90% são de religiosos. Tudo que o presidente Bolsonaro fez para esse segmento nenhum outro governo fez na vida, o que pode ser materializado com o André Mendonça no Supremo Tribunal Federal. O Republicanos tem total identidade política e convergência de princípios com o Bolsonaro. É uma questão de trazer mais para perto, dar mais atenção. Preciso saber com o Marcos Pereira o que é preciso para estar mais junto, porque a relação é de 100% de confiança. Não sei se é alguma coisa na bancada do Republicanos, dos deputados e senadores que estão insatisfeitos com alguma coisa. De repente, estamos tomando alguma decisão em um estado forte em que o Republicanos é forte e eles estão se sentido alijados da negociação. Não tem por que estar distante. O Republicanos tem o ministro João Roma, que colocou o seu nome para disputar o governo da Bahia.


A candidatura do ministro da Cidadania, João Roma, ao governo da Bahia não está decidida em virtude das negociações do grupo de vocês com o União Brasil, partido de ACM Neto (com quem Roma rompeu)?


É exatamente por isso. Se dependesse de nós haveria ali uma composição com o ACM Neto, até porque, entre as opções na Bahia, é o que está menos distante de Bolsonaro. No meu ponto de vista, seria uma boa aliança, só que equivocadamente o ACM Neto entende que o Bolsonaro puxa ele para baixo na questão de votos. As pesquisas dele mostram que teríamos uma grande rejeição na Bahia, e ele entende que isso é um peso para ele carregar. Mas vejo que ele está equivocado porque nossas pesquisas mostram que nunca houve uma rejeição tão grande ao Lula na Bahia como agora. Será uma eleição polarizada. O eleitor vai ver com quem o seu candidato a governador estará alinhado: com Bolsonaro ou com o ex-presidiário (Lula). Ele não terá como não se posicionar. O eleitor não gosta de quem está em cima do muro. Quando há esse impasse, surge a possibilidade de um outro nome, como aconteceu com João Roma na Bahia.


Em São Paulo, maior colégio eleitoral do país, o PP, do ministro-chefe da Casa Civil, Ciro Nogueira, está apalavrado com o vice-governador Rodrigo Garcia (PSDB), ligado ao governador João Doria, que vai concorrer ao Planalto. Não é uma incoerência?


O Ciro entende que o cenário da época em que houve essa conversa (com Garcia) mudou. O presidente foi para um partido grande, o PL, e ele é um ministro que ocupa, talvez, a pasta mais importante do governo. E ele também está buscando esse diálogo para ver se há um consenso. Mas o PP certamente estará com o Tarcísio em São Paulo, um candidato fortíssimo ao governo, resultado do movimento do (Geraldo) Alckmin de falar que aceita ser vice do ex-presidiário. Para mim, foi uma grande decepção; para o Alckmin, foi a o suicídio eleitoral.


O senhor diz que ainda negocia com o União Brasil, que cogita se unir numa federação com o MDB. Isso não esfria os planos de uma aliança?


Acho difícil que esses dois partidos grandes façam uma federação. Eu mantenho as conversas com (o vice-presidente do União Brasil Antonio) Rueda, já conversei com o Luciano Bivar (presidente do União Brasil) uma vez. O União Brasil jamais vai caminhar com Lula. E, até pelo fato de o Bolsonaro ser o grande responsável pelo tamanho que eles têm hoje, nada mais natural do que eles caminhem oficialmente conosco.


Quais são os principais entraves para uma aliança com o União Brasil?


Os dois principais entraves são justamente Bahia, com ACM Neto, e Goiás, com o governador Ronaldo Caiado. O presidente Bolsonaro já sinalizou que tem muito interesse de conversar e resolver esses dois estados. Acho que o União Brasil está muito mais próximo de Bolsonaro do que o do MDB.


Na época do rompimento com o PSL (sigla pelo qual o presidente se elegeu), Bolsonaro e Luciano Bivar trocaram farpas duras. É possível reconciliar?


Nada melhor que o tempo para curar as feridas. Houve erro de ambas as partes ali e, mais uma vez, faltou diálogo. O Bivar é uma pessoa do bem, ele é da política e está sempre disposto a conversar. Para mim, é só uma questão de tempo pra vocês virem Bivar sentado com o Bolsonaro de novo.


Como o grupo do presidente Bolsonaro tem acompanhando a crise no PTB? A presidente afastada da legenda, Graciela Nienov, chegou a participar de uma reunião com o comitê de campanha de Bolsonaro.


A Graciela nos procurou dizendo que tinha o completo apoio do Roberto Jefferson, que é o presidente, de fato, do partido. Nós reconhecemos isso e o respeitamos muito. Se ela tinha uma procuração dele para representar o PTB, é natural que participasse. Agora, a partir do momento que tem esse problema interno, temos que esperar para saber quem vai ser a pessoa que falará pelo PTB e participará das nosas reuniões. Tudo indica que o deputado Marcos Vinícius deve ser o próximo presidente do PTB.

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