Rio de Janeiro

‘Sou um milagre’: delegado que perdeu a perna na megaoperação do Rio relata emboscada e resgate sob tiros

‘Sou um milagre’: delegado que perdeu a perna na megaoperação do Rio relata emboscada e resgate sob tiros
Bernardo Leal — Foto: Patricia Teixeira/g1 Rio

Um ano depois de ser baleado durante a megaoperação nos complexos da Penha e do Alemão, o delegado Bernardo Leal relembrou a emboscada que quase tirou sua vida, o resgate realizado por colegas sob intenso tiroteio e a amputação da perna direita. Ele chegou ao hospital com apenas 3% de chance de sobreviver, recebeu 30 bolsas de sangue, passou por nove cirurgias e ficou sete dias em coma.

“Estou vivo por um milagre divino, sou um milagre. Acho que Deus me deixou aqui para cumprir essa nova missão de ser voz, lutar pelas pessoas e para que as coisas mudem”, declarou em entrevista ao g1, no aniversário de um ano da Operação Contenção, realizada em 28 de outubro de 2025. A ação terminou com 122 mortos, entre eles cinco policiais, e foi considerada a mais letal da história do Rio de Janeiro.

Bernardo integrava uma equipe da Delegacia de Repressão a Entorpecentes (DRE) que entrou no Complexo da Penha por volta das 5h para cumprir mandados judiciais. Os policiais enfrentaram barricadas e percorreram mais de duas horas a pé até a região da Vacaria. Segundo o delegado, a resistência armada superou as expectativas. “A gente sabia que era o coração dessa facção criminosa, sabia que o terreno era difícil de operar. Mas o fator surpresa foi a resistência maior do que a que estávamos esperando.”

A equipe avançava por becos estreitos quando ouviu disparos e acreditou que havia policiais militares do outro lado de uma passagem. As forças de segurança haviam combinado uma senha e uma contrassenha para evitar confrontos entre equipes. Um homem respondeu corretamente, levando os agentes a acreditar que se tratava de um colega.

“Quando cantou a contrassenha, a gente acreditou que era força amiga e que não ia ter mais resistência. Quando eu coloco a perna para fora, um criminoso mirou o fuzil 762 e disparou uma rajada. Eu tomei um tirou e caí no meio da linha de fogo”, relatou Bernardo.

O comissário Vinícius, que estava ao lado do delegado, derrubou uma motocicleta para usá-la como proteção. Outros policiais conseguiram arrastar Bernardo até uma residência, enquanto os disparos continuavam. Ferido e perdendo muito sangue, ele não conseguia voltar pelo caminho por onde havia entrado.

Para retirá-lo da casa, os agentes quebraram uma parede dos fundos com um botijão de gás e improvisaram uma maca com uma peça de madeira. “Eu me lembro deles me botando em uma madeira, acho que era uma prateleira da casa da moradora. Quando me tiraram da casa, achei que fosse ser atingido de novo, porque era muito tiro. Eu falei: ‘Meu irmão, vou morrer agora!’”

Durante a fuga, o sargento Figueiredo, da Polícia Militar, fez outro torniquete para tentar conter a hemorragia. Sem acesso a uma viatura, os policiais colocaram Bernardo em uma motocicleta encontrada na comunidade e seguiram com ele entre dois agentes até a primeira barricada.

“Eu falei: ‘Cara, estou morrendo, estou morrendo, não tenho mais força’. ‘Doutor, calma, espera mais um pouco. A gente está conseguindo’”, contou o delegado, ao recordar a conversa com um dos responsáveis pelo resgate. Ele estima que já estava ferido havia cerca de 40 minutos. “Ali, senti que não tinha mais força para sobreviver. Mas o ato de heroísmo de quem me salvou me deu força. Eles poderiam ter morrido. A eles, toda a minha gratidão.”

Bernardo foi levado ao Hospital Estadual Getúlio Vargas, na Penha, e posteriormente transferido para o Hospital Samaritano. Quando acordou do coma, sete dias depois, soube que os médicos haviam conseguido salvar sua vida, mas precisaram amputar sua perna direita. Ele permaneceu internado por 47 dias e enfrentou novas intervenções cirúrgicas e uma infecção óssea.

“Eu sabia que eu não podia reclamar de nada. Eu tinha que agradecer por estar vivo”, afirmou. Após receber alta, o delegado iniciou a reabilitação e passou a se adaptar a uma prótese biônica fornecida pelo Governo do Estado. “Você não tem a perna, mas com a muleta você também não tem as mãos. Então acho que a prótese vai me dar mais dignidade, mais qualidade de vida.”

Ao avaliar a ação policial, Bernardo rejeitou a interpretação de que as equipes entraram nas comunidades com a intenção de matar. Segundo ele, os agentes buscavam cumprir mandados judiciais, mas encontraram forte resistência armada. Sua avaliação sobre a ausência de vítimas civis inocentes é contestada no debate sobre a letalidade da operação.

“Ninguém acorda às 3h para um briefing de operação pensando em quantas pessoas vai matar. Ninguém sai de casa pensando nisso. O cara quer ir lá, cumprir a missão e voltar com vida”, declarou. Para Bernardo, a morte dos cinco policiais impede que a ação seja considerada plenamente bem-sucedida. “Uma operação em que há morte de colegas, infelizmente, ela não é 100% exitosa.”

O delegado defendeu que o poder público mantenha presença permanente nas comunidades, com segurança, saneamento, saúde, educação e assistência social. “Política de segurança pública não se faz só para a polícia. Política de segurança pública se faz com uma atuação multidisciplinar”, afirmou.

Eleito deputado estadual pelo PP com 57.254 votos, Bernardo pretende representar policiais da linha de frente, pessoas com deficiência e moradores de áreas dominadas por organizações criminosas. Apesar das sequelas, afirma que não guarda desejo de vingança contra o homem que o baleou e que participaria novamente de uma operação policial.

“Estava lá para cumprir a minha missão, nunca me vitimizei nem quero me vitimizar. Sabia dos riscos e iria de novo, porque esse é um trabalho essencial. A única tristeza que tenho é que a gente entra, faz a operação, e não consegue permanecer, retomar o território”, declarou.

Para o delegado, a experiência reforçou a necessidade de dar visibilidade aos profissionais que arriscam a vida e às famílias que convivem com o domínio de facções. “A gente tem que abrir mão das nossas vaidades e mostrar para a sociedade que há esperanças. O recado a ser dado não é com mortes, é com a ocupação do território. As pessoas estão ali, subjugadas, sofrendo. Acho que essas pessoas não são ouvidas. Então agora eu vou estar lá, cobrando por elas também.”

Com informações do g1.

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