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CV na Paraíba: crime organizado de baixa renda do Rio vai tomando conta do Brasil

CV na Paraíba: crime organizado de baixa renda do Rio vai tomando conta do Brasil
Segundo as investigações, integrantes da facção criminosa Comando Vermelho monitoram a rotina dos moradores de Cabedelo (PB) a partir do Rio de Janeiro — Foto: TV Globo/Reprodução

A cidade de Cabedelo, na Paraíba, virou um retrato brutal de como o crime organizado já não respeita fronteira, distância nem gabinete. A mais de 2 mil quilômetros do Rio de Janeiro, uma liderança do Comando Vermelho instalada no Complexo do Alemão passou a monitorar ruas, impor regras, influenciar a rotina dos moradores e, segundo as investigações, até se infiltrar na estrutura da prefeitura do município. As informações são do Fantástico.

O caso já mobilizou a Polícia Federal e o Ministério Público da Paraíba, que realizaram mais de dez operações para apurar o avanço da facção na cidade de pouco mais de 60 mil habitantes. O diagnóstico das autoridades é grave. Para o delegado regional da PF na Paraíba, João Marcos Gomes Cruz Silva, Cabedelo vive “um colapso institucional”. O procurador-geral de Justiça do MP-PB, Leonardo Quintans, resume o cenário sem rodeios: “A sociedade fica refém”.

Nas investigações, a polícia identificou um esquema de vigilância permanente operado à distância. Áudios interceptados mostram criminosos controlando a cidade com apoio de cerca de 30 câmeras clandestinas, instaladas em postes, árvores e casas. O monitoramento é tratado pelos investigadores como uma espécie de home office do crime organizado. Quando rivais aparecem, a ordem é seca. “Aço nele”, diz uma das mensagens captadas.

O nome que aparece no centro da engrenagem é o de Flávio de Lima Monteiro, o Fatoka, de 43 anos. Ex-integrante da facção Nova Okaida, na Paraíba, ele depois fundou a Tropa do Amigão, braço do Comando Vermelho no Nordeste. Contra ele, pesam 13 mandados de prisão por tráfico, homicídio e organização criminosa. Fatoka chegou a fugir em 2018 do presídio de segurança máxima da Paraíba durante uma fuga em massa de 92 detentos com uso de explosivos. Foi recapturado, ganhou liberdade com tornozeleira em 2022 e, no mesmo dia em que o equipamento foi instalado, rompeu o dispositivo e fugiu para o Rio.

Mesmo escondido no Alemão, segue ditando ordens para Cabedelo. Áudios mostram, por exemplo, planos de expansão da facção para o bairro do Bessa, em João Pessoa. Segundo a investigação, o grupo mapeia território, elimina rivais e consolida domínio com apoio de monitoramento remoto e homens armados em campo.

Nas ruas da cidade, o recado do crime está nos muros, nas armas e no medo. Imagens mostram grupos com até 13 homens armados circulando em áreas residenciais e dando tiros para o alto. Pichações com referência a Fatoka e ao Comando Vermelho marcam território. Moradores evitam falar e têm receio até de gravar entrevista.

Em setembro de 2024, um morador registrou em vídeo o carro da esposa atingido por tiros e fez um apelo: “Tem cuidado com os inocentes”. A resposta atribuída a Fatoka veio por áudio, em tom de deboche e ameaça. O episódio ajuda a medir o grau de normalização da barbárie.

A facção também teria avançado sobre o poder público. Segundo a investigação, o crime saiu das vielas e entrou nos gabinetes, usando a máquina municipal como braço logístico e financeiro. Os quatro últimos prefeitos de Cabedelo aparecem no radar das apurações. Leto Viana renunciou enquanto estava preso; André Coutinho teve o mandato cassado pelo TRE; Edvaldo Neto foi afastado 48 horas após a eleição; e Vitor Hugo acabou declarado inelegível. As defesas de André Coutinho, Edvaldo Neto e Vitor Hugo negam envolvimento com organizações criminosas. A defesa de Leto Viana não respondeu.

O esquema investigado inclui loteamento de cargos, rachadinhas e uso da empresa Lemon Terceirização e Serviços Ltda. para desvio de dinheiro público. O rombo estimado chega a R$ 270 milhões. De acordo com os investigadores, parentes e aliados da facção eram colocados na prefeitura e na Câmara de Vereadores, enquanto funcionários fantasmas tinham os salários revertidos para atividades ilícitas.

Ariadna Cordeiro Barbosa, apontada como gerente financeira da facção, afirmou em depoimento que as contratações seguiam a indicação da cúpula criminosa. “Indicação FTK [Fatoka]”, disse, ao relatar como os nomes entravam na folha.

Enquanto isso, a população pagava a conta. Quadras esportivas e prédios de saúde ficaram abandonados ou subutilizados. Em um prédio público, segundo a reportagem, apenas o raio-X funciona três vezes por semana. Até o vigilante seria funcionário da empresa investigada. Na atual gestão, o presidente da Câmara, José Pereira, assumiu o comando do município e admitiu a gravidade do quadro: “Não é fácil”. Já o procurador do município, Leonardo Nóbrega, informou que o contrato com a Lemon será anulado, mas com modulação para evitar paralisação de serviços essenciais prestados por mais de 600 funcionários.

Em nota, a Lemon afirmou que emprega mais de 700 pessoas em Cabedelo, disse exigir certidões criminais negativas desde 2024 e declarou que segue colaborando com as investigações.

O caso escancara também o papel do Rio como abrigo estratégico para criminosos de outros estados. O número de foragidos de fora presos em território fluminense saltou de 677 em 2022 para 1.105 em 2025. Segundo as autoridades, muitos passam a cumprir funções para a cúpula do CV em comunidades dominadas pela facção. Em operação realizada no Complexo da Penha em outubro passado, dos 117 criminosos mortos, 62 eram de outros estados.

A defesa de Fatoka afirma que não há elementos que o vinculem aos fatos narrados. Para a polícia, porém, ele continua foragido no Complexo do Alemão e segue monitorando a cidade paraibana à distância. Em um dos áudios atribuídos a ele, a frase resume o tamanho do domínio: “Só cai uma folha se eu disser que sim”.

Cabedelo, que deveria ser vitrine turística da Paraíba, acabou sequestrada por um modelo de poder paralelo que mistura facção, medo, câmera clandestina, corrupção e omissão estatal. O resultado é uma cidade onde o crime não apenas circula. O crime governa.

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