Rio de Janeiro

‘Eu não nasci para ser vítima’, crava Jojo Todynho em debate de vereador Satiê sobre Abolição da Escravidão

‘Eu não nasci para ser vítima’, crava Jojo Todynho em debate de vereador Satiê sobre Abolição da Escravidão
Foto: Cicero Rodrigues/CMRJ

O debate público “13 de Maio: A história que não te contaram”, promovido nesta quarta-feira (13) pelo vereador Rafael Satiê (PL), levou à Câmara do Rio uma discussão frontal sobre abolição, racismo, protagonismo negro e disputa de narrativa histórica. Presidido por Satiê, que comanda a Comissão de Combate ao Racismo da Casa, o encontro reuniu Jojo Todynho, Fernando Holiday, Luiz Philippe de Orleans e Bragança, Bárbara Hannelore, Cláudio Dias Antônio, professor Ralf, Sara Dias, Júlia de Castro, Paula Custódia e Sandra Petito. A abertura contou ainda com apresentação da Banda Sinfônica do Corpo de Bombeiros.

A linha central do evento foi a defesa de que o 13 de Maio precisa voltar a ser tratado como uma data de vitória nacional, sem apagar a complexidade do processo abolicionista e sem reduzir o povo negro à condição permanente de vítima. Ao abrir o debate, Satiê afirmou que a Lei Áurea não foi apenas um ato político, mas “um ato de coragem moral, de consciência cristã e de amor ao próximo”. O vereador também criticou o que chamou de tentativa de esvaziar o papel da Princesa Isabel e substituir a memória da abolição por uma narrativa de ressentimento.

“O racismo existe no Brasil. Eu não vou negar isso. Eu sou um homem negro, criado na favela do Jacarezinho, e eu já senti na pele o que é ser olhado de forma diferente por causa da cor da minha pele. Mas também é evidente dizer que o Brasil tem racismo, que é diferente de dizer que o Brasil é um país racista”, afirmou Satiê. Para o vereador, “todo racismo é crime, mas nem todo crime é racismo”. O parlamentar disse ainda que transformar todo conflito em racismo enfraquece o combate real ao preconceito e usa o povo negro como instrumento político.

Foto: Cicero Rodrigues/CMRJ
Foto: Cicero Rodrigues/CMRJ

A fala mais aguardada da noite foi de Jojo Todynho, que recebeu de Satiê uma réplica da Lei Áurea. A apresentadora e cantora falou sobre origem, trabalho, fé e recusa ao papel de vítima. “Eu não nasci para ser vítima, eu nasci para ser vitoriosa”, disse. Jojo lembrou que nasceu e cresceu em Bangu, trabalhou como faxineira, camelô, babá, cuidadora de idosos e vendeu picolé no trem. “O que me trouxe até aqui não foi o privilégio, foi o esforço, foi a persistência, foi acreditar que a minha origem não podia limitar o meu destino”, afirmou.

Durante o evento, Satiê também anunciou que já apresentou o requerimento para conceder a Medalha Chiquinha Gonzaga a Jojo Todynho. O vereador afirmou que a homenagem terá uma solenidade própria, “em uma data exclusiva para ela e para todos os seus familiares”.

O ex-vereador de São Paulo Fernando Holiday defendeu que a abolição brasileira deve ser compreendida como um processo institucional e gradual, sem guerra civil, ao contrário do que ocorreu em outros países. Para ele, a família real teve papel decisivo nesse caminho, ao lado de abolicionistas negros como André Rebouças, Luiz Gama e José do Patrocínio. Holiday também afirmou que o discurso atual sobre raça muitas vezes aprofunda divisões, em vez de promover integração.

Luiz Philippe de Orleans e Bragança, deputado federal e membro da família imperial, também tratou a abolição como um processo histórico construído por diferentes forças políticas e sociais, com a Princesa Isabel como aval institucional de um movimento que já vinha das ruas, do Parlamento e de lideranças abolicionistas. O deputado afirmou que a assinatura da Lei Áurea foi um momento de “humanidade” e de união nacional.

Entre os debatedores, Bárbara Hannelore destacou o papel de mulheres e lideranças negras apagadas da memória oficial. Ela afirmou que o Brasil precisa voltar a reconhecer a própria formação sincrética, construída pela mistura entre influências africanas, indígenas e europeias. O professor de História Ralf reforçou que o 13 de Maio “não nasceu de uma canetada branca” e lembrou a participação de negros, brancos, homens e mulheres no processo abolicionista. Cláudio Dias Antônio, fundador do movimento Negro de Direita, criticou a leitura que atribui a escravidão exclusivamente ao homem branco e afirmou que a escravidão foi uma “chaga da humanidade”.

“A abolição da escravatura não foi uma derrota, foi uma vitória. O povo negro não precisa de vitimização. Precisa de oportunidade, de educação, de uma família estruturada, de fé e de liberdade”, encerrou Satiê.

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