Enquanto o Brasil gasta energia com guerras ideológicas, Estados Unidos, China e outras potências correm para dominar a inteligência artificial, a computação quântica e a economia das próximas décadas. O alerta é do brasileiro Mat Velloso, ex-vice-presidente do Google e ex-integrante do laboratório de IA da Meta.
Em entrevista à Folha de São Paulo, Velloso afirmou que o país corre o risco de ficar para trás em uma transformação que já começou. Segundo ele, a inteligência artificial vai acelerar algumas nações em ritmo sem precedentes.
“Nos próximos cinco anos haverá países que vão acelerar cem anos. Se o Brasil não acelerar junto, a gente volta para 1500”, disse.
Para o executivo, o problema brasileiro não é falta de potencial, mas falta de foco. Ele criticou a baixa qualidade do debate político sobre o tema e afirmou não ver propostas concretas para preparar o país para a nova disputa tecnológica.
Velloso também apontou a energia elétrica como peça central da corrida pela inteligência artificial. Segundo ele, quem tiver energia barata e abundante terá vantagem para atrair data centers, investimentos bilionários e empresas ligadas à nova economia.
“Quem tem energia, tem inteligência artificial. Os países vão trocar energia por inteligência”, afirmou.
Na avaliação do especialista, a China saiu na frente porque investiu durante décadas em infraestrutura, geração de energia e formação de pesquisadores. Enquanto isso, o Brasil segue preso à polarização política e perde tempo em disputas que pouco ajudam no desenvolvimento do país.
O executivo acredita que o Brasil ainda tem chance de entrar nesse jogo, especialmente pela capacidade de produzir energia. Mas alerta que, sem estratégia, o país pode virar apenas consumidor de tecnologias criadas fora, enquanto outras nações concentram riqueza, dados e poder.
Apesar do tom duro, Velloso vê a inteligência artificial como uma oportunidade para transformar áreas como saúde, educação, segurança, Justiça e finanças. Para ele, o risco não está apenas na tecnologia, mas na incapacidade dos governos de entenderem a velocidade da mudança.
“A escolha entre usar a IA para resolver grandes problemas ou criar enormes ameaças ainda está nas nossas mãos”, afirmou.