Rio de Janeiro

Após vendaval histórico no Rio, dados federais revelam que 19 cidades do estado não têm sistema próprio de alerta

Após vendaval histórico no Rio, dados federais revelam que 19 cidades do estado não têm sistema próprio de alerta

intenso vendaval que atravessou o estado do Rio na última quarta-feira (29) revelou a velocidade com que um evento climático pode alterar a rotina de diferentes cidades. Em Niterói, uma rajada chegou a 92 km/h. Em Angra dos Reis, os ventos alcançaram 104 km/h. Na capital, o município entrou no Estágio 2 de atenção por causa do registro de ventos muito fortes.

Ao mesmo tempo, o episódio também lança luz sobre uma lacuna na estrutura de prevenção para eventos desse porte: 19 dos 92 municípios fluminenses — 20,7% do total — não têm um sistema próprio de monitoramento e alerta antecipado registrado no Indicador de Capacidade Municipal, o ICM.

O levantamento leva em conta dados do Ministério da Integração e do Desenvolvimento Regional.

63% dos municípios do estado não tem alta capacidade para gestão de riscos

Apesar da deficiência nos sistemas de alerta, o cenário geral do Rio é melhor que o quadro nacional. Nenhum município fluminense aparece na faixa D, classificada como “capacidade inicial” para gestão de riscos e desastres. No país, essa é a situação de 38% dos municípios brasileiros.

No estado do Rio, apenas 34 cidades estão na faixa A, que considera como alta a capacidade do município de lidar com a crise. Outros 58 municípios — 63% do estado — ficam nas posições de cuidado intermediário.

Faixa do ICMClassificaçãoMunicípios do RJParticipação
AAlta3437%
BIntermediária avançada3841,3%
CIntermediária inicial2021,7%
DInicial00%

Metade das cidades da faixa C não tem alerta municipal

Das 19 cidades fluminenses sem sistema municipal de monitoramento e alerta antecipado, dez estão na faixa C, a mais baixa entre as prefeituras fluminenses: Carapebus, Comendador Levy Gasparian, Cordeiro, Japeri, Nilópolis, Piraí, Sapucaia, Saquarema, São José do Vale do Rio Preto e Valença.

As outras nove são Armação dos Búzios, Duas Barras, Iguaba Grande, Mendes, Pinheiral, Quatis, Quissamã, Rio das Ostras e São Sebastião do Alto.

Apenas 35 cidades, ou 38%, registraram carta geotécnica de aptidão à urbanização. Somente 38, equivalentes a 41,3%, informaram possuir Núcleos Comunitários de Proteção e Defesa Civil, os Nupdecs.

Outras fragilidades aparecem no planejamento:

  • 49 municípios (53,3%) têm Plano Municipal de Redução de Riscos;
  • 50 (54,3%) possuem pessoa certificada em alguma temática do plano federal de capacitação;
  • 54 (58,7%) incluem Proteção e Defesa Civil no PPA municipal;
  • 60 (65,2%) incluem o tema no plano diretor;
  • 62 (67,4%) registraram política habitacional para reassentar famílias retiradas de áreas de risco;
  • 70 (76,1%) possuem dotação específica para Defesa Civil na Lei Orçamentária Anual.

No sentido oposto, todos os municípios fluminenses declararam possuir uma Coordenação Municipal de Proteção e Defesa Civil, usuário habilitado no Sistema Integrado de Informações sobre Desastres e carta de suscetibilidade ou documento equivalente. Planos de contingência e mapeamento de áreas de risco aparecem em 89 das 92 cidades.

Indicador mede estrutura, não testa resposta real

O ICM reúne instrumentos de planejamento, capacidade institucional e políticas municipais. A classificação considera o perfil de risco e o tamanho da população: os requisitos são mais elevados para municípios prioritários e para cidades com mais de 100 mil habitantes.

Por isso, a faixa não funciona como uma nota convencional. Uma cidade pequena e não prioritária pode entrar na faixa A com menos variáveis que um município prioritário classificado na faixa C. Também é necessário atingir mínimos específicos em cada dimensão; a pontuação total, isoladamente, não determina a categoria.

O indicador retrata a presença declarada de planos, órgãos, equipes, sistemas e políticas. Não mede diretamente a qualidade dos documentos, a cobertura territorial dos alertas, o tempo de reação, a manutenção dos equipamentos nem a eficiência operacional durante uma emergência.

Ainda assim, a base oferece um retrato relevante. O estado do Rio reúne uma proporção elevada de municípios nas faixas superiores e não tem nenhuma cidade na categoria inicial. Mas o bom resultado agregado convive com lacunas justamente entre localidades oficialmente reconhecidas como mais suscetíveis a desastres.

O vendaval de 29 de julho transformou essa diferença institucional em um dado concreto: enquanto cidades com estruturas completas monitoraram o avanço do fenômeno, emitiram alerta e ativaram protocolos, uma em cada cinco prefeituras fluminenses ainda não registra sistema municipal próprio de monitoramento e alerta antecipado.

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