O mapa-múndi que atravessou gerações nas paredes das escolas pode estar com os dias contados. A Assembleia Geral da ONU aprovou nesta sexta-feira (4) uma resolução para abandonar gradualmente a tradicional projeção de Mercator e adotar representações que mostrem com maior precisão o tamanho da África e de outras regiões do planeta.
A proposta, apresentada pelo Togo, recebeu 164 votos favoráveis. Os Estados Unidos foram o único país a votar contra. Estônia, Geórgia, Lituânia, Moldávia, Sérvia e Ucrânia se abstiveram.
Criada pelo cartógrafo Gerardus Mercator em 1569, a projeção foi desenvolvida principalmente para facilitar a navegação marítima. O problema é que, ao transformar o globo terrestre em uma superfície plana, ela distorce fortemente o tamanho das áreas, especialmente à medida que se aproximam dos polos.
O resultado pode enganar os olhos. Na projeção tradicional, a Groenlândia parece ter dimensões comparáveis às da África. Na realidade, o continente africano é cerca de 14 vezes maior que a ilha. O Brasil, sozinho, tem aproximadamente quatro vezes a área da Groenlândia.
“Seu uso para fins de informação geral ou educacional continua a influenciar a percepção que gerações inteiras têm sobre a aparência do mundo”, afirmou o chanceler do Togo, Robert Dussey. Segundo ele, essas distorções acabaram reduzindo visualmente a África e outras regiões.
Qual mapa pode entrar no lugar?
A campanha liderada pelo Togo defende a projeção Equal Earth, desenvolvida em 2018 por uma equipe internacional de cartógrafos. O modelo busca preservar melhor as proporções das áreas dos países e continentes.
A mudança não significa que o mapa de Mercator esteja simplesmente “errado”. Toda projeção de uma Terra aproximadamente esférica sobre uma superfície plana produz algum tipo de distorção. A Mercator preserva ângulos e direções locais — característica importante para a navegação —, mas distorce áreas. A discussão da ONU é sobre sua utilização como representação geral do tamanho relativo dos territórios.
A França anunciou antes da votação que também pretende abandonar a projeção de Mercator em mapas-múndi de uso geral.
EUA criticam decisão
Washington foi na direção contrária. A delegação americana classificou a iniciativa como parte de uma agenda ideológica mais ampla e criticou a ONU por dedicar esforços ao tema em vez de questões relacionadas à paz e à prosperidade internacional.
A Ucrânia apresentou outra objeção. O país afirmou concordar com o objetivo central da proposta, mas disse que os mapas apresentados como referência representam de maneira inadequada territórios ucranianos atualmente ocupados pela Rússia.
A resolução não obriga os países a trocar seus mapas imediatamente. A aprovação, porém, pode influenciar materiais escolares, documentos oficiais e plataformas digitais.
O governo do Togo pretende reunir Unesco, União Africana e empresas de tecnologia, incluindo o Google Maps, em um encontro previsto para o primeiro trimestre de 2027 para discutir como colocar a mudança em prática.